terça-feira, 2 de novembro de 2010

Xampu, de Roger Cruz - Psicodelia anos 80.

Quem viveu durante a segunda metade da década dos anos 1980 e início da primeira metade dos anos 1990 vai se confundir com a obra Xampú, subtítulo Lovely Losers, do paulista Roger Cruz- http://www.rogercruzbr.blogspot.com/ -, publicado pela Devir.  Quem cresceu ouvindo discos de vinil naquela época vai se identificar de cara com a capa com desenho de long play "XAMPU 80's GREATEST HITS, remetendo à doce e frenética vida pós Cruzado Novo. Quem espera apelos super heroicos se surpreenderá com o traço competente e despojado de Roger Cruz, um dos primeiros brasileiros a estrear o panteão de excelentes desenhistas tupiniquins que viraram referência na Marvel e DC Comics. Xampú é uma HQ quase biográfica, onde o autor-personagem se confunde com a própria narrativa quando dividia um apartamento na zona norte de São Paulo, mais precisamente entre os bairros de Santana e Santa Terezinha, juntamente com amigos dos mais diferentes estilos, desde o vocalista escroto de uma banda hard rock chamado "Sombra", que nas palavras do autor-personagem "traçava todas, não perdoava ninguém", até o nerd da turma, o Pedrão, que em meio a muita festa regada a bebida, rock e sexo no famoso "apê", sempre dava carona aos colegas de Sombra, pois justiça seja feita, Pedro era o único daquela trupe de malucos que tinha carro e servia de involuntário transportador da banda de Sombra, apesar dos constantes resmungos do colega. Alex e Max eram outros bons malucos rockers que fechavam o famoso "apê" e promoviam festas até o raiar do dia para desespero dos vizinhos do prédio.
É neste clima nostálgico para quem ouvia Smiths, Led Zepelin, The Cure, The Cult, Ratos de Porão, Titãs e assistia Stallone Cobra e O Corvo, que se ambientam as despretensiosas e não menos ricas histórias desse grupo de amigos que viviam efusivamente à maneira deles aquele momento. As referências musicais e culturais não faltam na HQ, seja nos posteres nas paredos do "apê" da zona norte, até as capas de discos de vinil, o que dá um insuspeito ar de revival a quem foi jovem naqueles conturbados anos 80 de inflação galopante e relativamente difíceis perspectivas à juventude em busca de emprego formal quando os preços galopavam a 80% ao mês. "Vade Retro Inflação!"


O contraponto é justamente a aparente salutar alienação dos personagens do "apê" que estavam mais preocupados em viver suas vidas com a intensidade que a postura rocker ou juvenil cobrava naquele momento, que propriamente a preocupação em arrumarem emprego formal. Àquela turma bastava o sustento ralo dos shows de hard rock ou alguns bicos como tradutor de filmes pornô, pérola que o narrador descreve com invulgar desenvoltura: "tempos depois descolei um emprego freelancer como tradutor de filmes pornôs para engordar meu orçamento. Pagavam pouco, mas tudo bem...era unir trabalho com diversão".

Todas as referências culturais e históricas estão muito bem demarcadas nas páginas de "Xampú Lovely Losers". Quem pegava ônibus da CMTC em São Paulo naquela época vai suspirar com ar saudosista ao ver os desenvoltos desenhos de Roger com os antigos pontos de ônibus tipo pirulito. A vida dura e ao mesmo tempo bem humorada de amigas que moram na periferia, e como todas as moças comuns, com suas dúvidas corriqueiras e singulares na época na qual telefone celular era um aparelho quase de ficção que víamos só em filmes americanos, onde era mais fácil inventar uma mentira à mãe, dizendo que ia dormir na casa da amiga ou da tia, e que ela não deveria esquecer de levar o vestido para a tia, mas na verdade fora dormir com anti-heroi Sombra, tornam a HQ deliciosamente encantadora, porque a simplicidade é bela e toda história de pós-adolescente é também bela, porque cada um de nós tem a sua, e a soma de todas as nossas experiências nos faz o que somos hoje. O arremate desse episódio vem quando a garota, após passar uma noite daquelas com o Sombra, que generosamente a acompanha até o ponto de ônibus após acordarem quase de tarde, chega em sua casa, na periferia e quando diz à mãe que acabara de chegar, ouve imediatamente: "O vestido serviu na sua tia?" E Rachel, uma dos tantos casos de Sombra fecha a cena com um retumbante "Ai merda!"

Roger Cruz  capta com sua câmera de artista perspicaz a favela, a periferia, a vizinhança de classe média e média baixa, o despojamento arquitetônico das lajes das casas, das ruas íngremes,  da molecada brincando de rolemã. Imagens secundárias que só fazem embelezar o plano principal das cenas que quem viveu essa época, terá com certeza momentos de puro encantamento urbano. E para finalizar, o principal mérito do artista foi o uso preciso de meta-linguagem. O "apê" de fato existiu e existe e já foi ponto de encontro de vários artistas ou pretendentes a este título, e para minha surpresa, um grande amigo me chamou a atenção que nós já frequentáramos, ainda que moderadamente este caloroso covil de malucos, o apartamento de Edde Wagner, desenhista e arte-finalista talentoso, incentivador e apresentador de vários artistas hoje renomados no mundo das HQ's super heroicas mundo afora, entre eles, o modesto Rogério, hoje o famoso Roger Cruz. Deus salve o "apê", que nos legou tantos talentos.

Por isso e muito mais, Xampu Lovely Losers merece ser lido e relido.


Marcos Araujo

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